Vi muitas críticas ao filme. Todos elogiaram, afinal de contas o filme é mais maduro que seu antecessor. Não sou muito bom em analisar tecnicamente um filme, mas por ser carioca e ter morado no bairro Tanque, gostaria de compartilhar algumas observações, correções e até mesmo opiniões, por que não?
Primeira correção, dos bairros mostrados, Rio das Rochas e bairro do Tanque, um não existe e o outro foi uma liberdade poética, pois não retrata o bairro real e sim é um nome fantasia para mascarar o real bairro por trás das críticas. Para quem é do Rio, pode parecer óbvio, mas preciso falar para as pessoas que não conhecem. O Rio das Rochas foi o nome fantasia escolhido para retratar o conhecido Rio das Pedras. Este local é muito conhecido por conter o Castelo das Pedras, conhecido reduto do funk. Desde que a comunidade se formou, nunca ouvi dizer que ela esteve em outras mãos que não as da milícia, outrora conhecida como polícia mineira por muitos cariocas. O bairro Tanque, embora realmente exista, serviu de nome fantasia para encobrir uma comunidade que já fôra retratada em outro sucesso do cinema nacional, Cidade de Deus.
Um dos esquemas mais lucrativos na Zona Oeste do Rio de Janeiro, é o dos transportes alternativos, mas infelizmente foi pouco citado no filme, embora tenham sido mostradas inúmeras vezes as kombis com faixas coloridas, muito conhecidas e utilizadas pelo povo carioca. Para os de fora, digo que os problemas de transportes no Rio são muito sérios e não parecem ter solução à curto prazo, por isso os cariocas muitas vezes se vêem obrigados a alimentar essa indústria dos transportes alternativos. No início, a coisa era mais cômoda pois todos íam sentados, ainda que apertados. Hoje, já ocorrem casos de pessoas embarcarem e seguirem viagem em pé! O que é um absurdo, nem preciso dizer que é inseguro.
Quanto a Cidade de Deus, passei por poucas e boas, pois todos os caminhos de ir da Barra ao Tanque, passam ou por dentro, ou muito próximo de lá. Por sorte ou ajuda lá de cima, nunca me aconteceu nada diretamente. Há coisa de 1 ano fiquei sabendo que a milícia estava tomando o bairro e com isso trazendo alguma sensação de segurança, ainda que falsa.
Passando pelo assunto de curral eleitoral, é muito comum ver na Zona Oeste centros assistenciais de candidatos que habitam a região. O resultado disso são esses candidatos sendo eleitos eleição após eleição. O caso mais notório e que passou impune por inúmeras vezes, foi o do Nadinho do Rio das Pedras.
Falei apenas da realidade até agora e vou seguir mais um pouco. Dessa vez falarei sobre a favelização da cidade. Some o transporte público que é extremamente precário e ineficaz, o fato de que nas “comunidades” (vulgo favelas) tudo funciona à base de gato e não existem impostos, vocês acham que as pessoas fazem o que? Preferem morar próximo ao trabalho, mesmo que isso signifique habitar uma comunidade. Eu morava em um bairro simples, mas bem legal. Infelizmente, para chegar em qualquer empresa que já trabalhei, levava aproximadamente 2 horas de translado. Era desgastante, mas dignidade não tem preço. Notem, nem todos se submetem às comunidades, muita gente habita cidades da baixada fluminense e levam o mesmo tempo ou até mais do que eu para chegar ao trabalho.
Para ir de um lugar a outro na cidade, é praticamente impossível não passar por ao menos uma comunidade. Independente de ser pacificada, controlada por milicianos ou por traficantes.
Gostaria de aproveitar o tema polêmico para alertar que a pacificação está muito bonita para ser verdade. O que está ocorrendo na verdade, é que uma parte dos bandidos estão migrando para o interior do do estado, outra parte para outros morros da zona norte. Um dos bairros que mais tem sofrido com isso, é Madureira. Como sei disso? Minha mãe mora lá e acreditem, os tiroteios estão ocorrendo cada vez mais. Só o poder público não quer enxergar o problema real.
Voltando ao filme, ele mostra a realidade mais fácil de transcrever em palavras pelos autores, afinal todos são do Rio, mas não se iluda meu amigo, essa endemia não é exclusividade da cidade maravilhosa. Em São Paulo nesse momento, estão ocorrendo inúmeros assaltos em série à joalherias. Em Curitiba, as pessoas também afirmam não estar tão seguro quanto parece. Outro estado que merece atenção é o Espírito Santo. Só citei os que realmente vi ou visitei, mas o problema está no país todo. Os bandidos estão mais organizados do que querem que achemos que são/estão.
Era muito importante que o filme tivesse chegados às bilheterias antes das eleições, mas vocês acreditam mesmo que não houve manipulação para que toda a massa votasse ainda seguindo os critérios de todo bom curral eleitoral? Infelizmente, somo um povo bunda mole, que daqui a quatro anos, teremos esquecido todas as coisas que o filme nos esfregou na cara. Se você um dia acreditou que o movimento dos “cara-pintada” realmente foi algo espontâneo, te pergunto, por que não fizeram o mesmo com o Lula? Afinal o Mensalão foi, sem sombra de dúvidas, o escândalo mais vergonhoso em anos! O pior é saber que esse esquema foi “necessário”, afinal as pessoas votaram naquela época sem a consciência de que um presidente sem a maioria na câmara e no senado, não consegue realizar nenhuma grande mudança, afinal de contas o presidente é só uma figura, que não tem poder algum. O poder de veto é legal, mas se ele vetasse todos os projetos porque a câmara vetou todos os projetos da base, como ficaríamos?
Notaram que do filme mesmo eu pouco falei? A idéia do filme, na minha opinião, não era que você saísse de lá achando que Capitão Nascimento é mais foda que o Chuck Norris. A idéia era te fazer pensar, ajudar, um pouco que seja, a mudar a cabeça dessa geração, que estão tão acostumada com a revolução do sofá. O primeiro passo é passarmos a ver os problemas e saber a quem culpar. O Segundo passo é aprender a usar o voto como arma para conseguir melhorar o que nos é importante. O terceiro passo, e que vai levar muito mais tempo, é o povo aprender a acompanhar os políticos, projetos e pressionar os políticos a cumprirem suas promessas, as mesmas promessas que os fizeram chegar lá.
O filme é impecável como crítica, muito bom como filme de ação e principalmente, me faz sentir que todos esses anos evitando o cinema nacional pela falta de originalidade ou criatividade, estamos em uma época aonde, novamente, as formas de arte, voltaram a criticar a nossa sociedade. Eu curto muito Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Capital Inicial e Biquini Cavadão dos anos 80, pois eles fizeram parte de um movimento cultural que buscava criticar a nossa sociedade. Peguem as letras das músicas, a grande maioria era rebelde e nos fazia pensar sobre as críticas nas letras. Fico muito triste e ver o cenário musical nacional, reduzido à baladinhas e bandas coloridas. Os rebeldes de antes se renderam à indústria e ao dinheiro. Cada um tem seus motivos, mas eu adoraria ver novamente bandas dispostas a nos mostrar o que não conseguimos ver.
Enfim, o intuito era fazer você pensar. Não quero ser ídolo de ninguém, nem que você concorde com tudo que está escrito. Apenas compartilho minhas idéias e opiniões, visando tornar-me uma pessoa melhor com os comentários e argumentos de vocês.